O modelo econômico que guia empresas há séculos chega a um ponto de inflexão, exigindo novas formas de criação de valor.
1. Crise estrutural e transformação do capitalismo
Desde a crise de 2008, o capitalismo tradicional enfrenta desafios que vão além de oscilações cíclicas. Pesquisadores apontam uma fase marcada pela financeirização extrema, pelo papel dominante das grandes empresas de tecnologia e pela mercantilização de aspectos antes intangíveis da vida humana.
Esse cenário se sustenta em uma rede complexa de relações financeiras e de poder. Falamos de uma crise de 2008 e financeirização avançada que ampliou a dependência de crédito tanto para empresas quanto para indivíduos. Ao mesmo tempo, observa-se a colonização das esferas moleculares da vida — dados, hábitos e emoções transformados em ativos digitais negociáveis.
Marxistas modernos destacam a dívidas insustentáveis de trabalhadores e Estados como rota de fuga para a queda da taxa de lucro, empurrando famílias e governos a níveis elevados de endividamento. Nesse contexto, autores como Yanis Varoufakis cunharam o termo “tecnofeudalismo”, em que plataformas monopolistas detêm poder de mercado e influência política sem precedentes.
2. Do “velho capitalismo” ao “lucro com propósito”
Em reação às tensões do modelo orientado ao lucro de curto prazo, emergiu uma nova onda: o capitalismo de stakeholders. Empresas começam a reconhecer que não podem prosperar isoladas de seu ecossistema social e ambiental.
A visão clássica de que o único dever de uma organização é “maximizar o lucro dos acionistas” deu lugar a propostas que buscam valor para múltiplos stakeholders. Essa reestruturação implica gestão estratégica voltada para empregados, clientes, comunidades e o meio ambiente.
O conceito de “lucro com propósito” apoia-se no triple bottom line, que equilibra metas responsabilidade socioambiental e transparência com resultados financeiros. Para isso, é essencial:
- Definir um propósito claro que orienta decisões e cultura organizacional.
- Criar conexão emocional e engajamento de colaboradores e consumidores.
- Integrar práticas sustentáveis às operações diárias.
Em termos práticos, empresas bem sucedidas nessa transição desenvolvem estratégias de longo prazo, medem impactos e comunicam resultados de forma aberta. A contabilidade assume um papel transformador, deixando de ser um mero registro de valores para se tornar uma ferramenta de mensuração de impactos sociais e ambientais.
3. Dados e tendências: ESG, sustentabilidade corporativa e investimentos sociais
Os indicadores mais recentes mostram que o movimento ESG (Environmental, Social, Governance) ganha força estrutural e não se trata de uma moda passageira. No Brasil, 76% das empresas já implementaram práticas sustentáveis, e 72% incorporaram a sustentabilidade em suas estratégias corporativas.
Principais desafios incluem a prova de retorno financeiro e a insuficiência de políticas públicas. Ainda assim, o estágio de maturidade faz diferença:
Empresas que avançam em ESG reportam ganhos consistentes:
- Reputação fortalecida;
- Maior inovação e resiliência a crises;
- Colaboradores mais engajados e recompensados.
Investidores institucionais também priorizam fundos sustentáveis, evidenciando a consolidação de uma tendência que alia retorno financeiro a impacto positivo.
4. Tensões, limites e futuros possíveis
Apesar dos sinais positivos, há obstáculos a superar. A implementação de práticas sociais e ambientais pode sofrer de greenwashing, falta de métricas padronizadas e resistência cultural. Além disso, a automação e a inteligência artificial ameaçam milhões de empregos, criando nova onda de insegurança laboral.
Para avançar de forma equilibrada, é preciso combinar regulação, investimento em educação e inovação inclusiva. Políticas públicas eficazes e parcerias entre setor privado, governos e sociedade civil podem fomentar uma economia mais justa e sustentável.
No horizonte, vislumbramos diferentes cenários:
- Governança global colaborativa, com regras claras para plataformas digitais.
- Modelos de negócio baseados em governança participativa e inclusiva, com voz ativa de comunidades afetadas.
- Transição para circularidade dos recursos e economia regenerativa, reduzindo desperdícios e promovendo renovação dos ecossistemas.
Cada empresa e indivíduo pode contribuir adotando práticas responsáveis, suportando certificações independentes e direcionando investimentos para iniciativas que unam lucro a propósito.
O futuro do capitalismo passa por decisões que superem o imediatismo e abracem a complexidade do mundo contemporâneo. Mais do que uma exigência moral, essa mudança representa uma inovação responsável orientada por propósito capaz de gerar resultados duradouros e coletivos.
Ao incorporarmos esses princípios, construímos um sistema econômico capaz de valorizar o ser humano e o planeta, abrindo caminho para um ciclo virtuoso de prosperidade compartilhada. O lucro deixa de ser um fim em si mesmo e se reinventa como instrumento de transformação social, sinalizando um novo capítulo para o capitalismo no século XXI.
Referências
- https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/alexa-o-que-ha-de-novo-no-capitalismo/
- https://sustentabilidadeagora.com.br/panorama-sustentabilidade-corporativa-2025/
- https://esquerdaonline.com.br/2025/09/03/quatro-rotas-de-fuga-do-capitalismo/
- https://www.hostinger.com/br/tutoriais/comercio-social
- https://progressive.international/wire/2025-08-22-reorganizing-production-to-serve-life-not-profit/pt-br/
- https://www.contabeis.com.br/artigos/71537/lucro-com-proposito-como-a-gestao-empresarial-se-transforma/
- https://www.jornaldenegocios.pt/negocios-iniciativas/jogo-da-bolsa/detalhe/o-velho-capitalismo-esta-morto-longa-vida-ao-novo
- https://istoedinheiro.com.br/investimento-social-de-empresas-e-instituicoes-cresceu-194-em-2024
- https://www.agazeta.com.br/colunas/rafael-furlanetti/entenda-por-que-o-futuro-do-capitalismo-e-verde-1125
- https://neomondo.org.br/slider/entre-o-proposito-e-o-lucro-o-ponto-de-equilibrio-do-impacto
- https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/jose-pio-martins/capitalismo-desafios-desilusao-jovens-socialismo/
- https://portosocial.org/blog/empreender-com-impacto-os-desafios-de-quem-busca-lucro-com-proposito
- https://www.cnnbrasil.com.br/economia/financas/brasil-deve-ganhar-4-milhoes-de-novos-investidores-em-2025-aponta-pesquisa/
- https://portugal2030.pt/resultados-pt2030/
- https://www.gov.br/cvm/pt-br/assuntos/noticias/2025/pesquisa-sobre-perfil-do-investidor-brasileiro-aponta-formacao-de-reservas-para-aposentadoria-como-principal-objetivo-de-investimento
- https://www.bcb.gov.br/detalhenoticia/20863/noticia







